
A gente aprende muito cedo que precisa ser forte.
Nem sempre alguém diz isso diretamente. Às vezes, aprendemos observando. Percebendo o que é esperado de nós. Entendendo quais sentimentos cabem e quais parecem atrapalhar. Descobrindo que algumas dores precisam ser superadas depressa, que é preciso continuar funcionando, seguir em frente, dar conta.
E vamos ficando bons nisso.
Aprendemos a responder que está tudo bem. A cumprir compromissos mesmo cansados. A resolver o que precisa ser resolvido. A atravessar períodos difíceis sem interromper a rotina. Muitas vezes, essa capacidade foi necessária. Talvez tenha sido justamente ela que nos permitiu chegar até aqui.
Mas nem tudo em nós acompanha esse movimento na mesma velocidade.
Às vezes, a mente entende que algo passou antes que o corpo consiga fazer o mesmo.
A situação terminou, mas os ombros continuam elevados. A conversa acabou, mas a mandíbula permanece apertada. Não há nada acontecendo naquele momento e, ainda assim, a respiração parece curta. O corpo continua acelerado quando já não existe mais para onde correr.
Durante muito tempo podemos nem perceber.
A tensão vira postura. O cansaço vira rotina. Respirar pela metade parece normal. Dormir mal passa a fazer parte da vida. Há quem se acostume tanto a viver em estado de esforço que só percebe o quanto estava contraído quando, por algum motivo, consegue relaxar.
Não significa que exista uma explicação simples para cada sensação corporal.
Também não significa que todo desconforto tenha uma origem emocional.
Mas existe uma pergunta que pode ser importante: há quanto tempo eu não presto atenção naquilo que o meu corpo está dizendo?
“Às vezes, a mente entende que algo passou antes que o corpo consiga fazer o mesmo.”
Nino SampaioQuando continuar em frente se torna automático
Existe uma diferença entre seguir adiante e não conseguir parar.
Por fora, as duas coisas podem parecer iguais. A pessoa trabalha, cuida da vida, responde mensagens, toma decisões, resolve problemas. Mas, internamente, talvez exista um estado de prontidão que nunca realmente termina.
Como se relaxar exigisse confiança demais.
Como se diminuir o ritmo significasse perder alguma coisa.
Como se sentir pudesse desorganizar aquilo que levou tanto tempo para ser mantido de pé.
Então fazemos mais força.
Tentamos controlar melhor. Produzir mais. Organizar mais. Entender mais. Procuramos uma solução para a tensão usando justamente a mesma lógica que ajudou a construí-la.
E talvez seja por isso que, em determinados momentos, fazer mais não seja exatamente aquilo de que precisamos.
Talvez seja necessário perceber.
O corpo também participa da nossa história
Costumamos tratar mente e corpo como se fossem dois territórios independentes.
Pensamos com a mente. Sentimos com o corpo.
Mas a experiência humana não acontece de maneira tão organizada.
Há coisas que nunca chegaram a se transformar completamente em palavras. Sensações que apareceram antes de qualquer explicação. Reações que aprendemos muito antes de entendermos de onde vinham.
O corpo participa da forma como atravessamos o mundo.
Ele se contrai. Recua. Avança. Interrompe a respiração. Procura apoio. Se prepara. Descansa quando consegue.
Por isso, prestar atenção ao corpo não significa procurar uma resposta pronta dentro dele. Significa reconhecer que nossa experiência não acontece apenas no pensamento.
Às vezes, aquilo que chamamos simplesmente de tensão merece ser observado com um pouco mais de curiosidade.
Não para imediatamente corrigir.
Não para obrigar o corpo a relaxar.
Mas para perguntar o que acontece quando deixamos de tratá-lo apenas como alguma coisa que precisa funcionar.
Escutar não é o mesmo que consertar
Na análise, muitas vezes começamos por aquilo que insiste.
Um pensamento recorrente. Uma situação que se repete. Uma dificuldade que parece retornar sob formas diferentes. Uma sensação de que alguma coisa não está encontrando lugar.
A escuta cria espaço para que isso possa aparecer sem a exigência imediata de uma solução.
Com o corpo talvez exista um movimento semelhante.
Respirar com presença.
Mover-se com um pouco mais de gentileza.
Perceber uma sensação antes de tentar modificá-la.
Notar onde existe esforço quando ele já não é necessário.
Tudo isso pode abrir outra qualidade de atenção.
Não se trata de transformar a respiração, o movimento ou o corpo em técnicas para eliminar aquilo que incomoda. Fazer isso seria apenas encontrar uma nova maneira de continuar exigindo que tudo se resolva rapidamente.
Talvez o gesto seja outro.
Criar condições para escutar.
Da mesma forma que a análise pode criar espaço para escutar aquilo que acontece na vida psíquica, a atenção ao corpo pode nos aproximar de uma parte da experiência que frequentemente deixamos em segundo plano.
E esse encontro nem sempre produz respostas imediatas.
Às vezes, ele produz algo anterior às respostas.
Percepção.
Talvez o corpo não esteja contra você
Quando alguma sensação persiste, é fácil entrar em conflito com ela.
Por que eu continuo assim?
Por que não consigo relaxar?
Por que meu corpo reage desse jeito se eu sei que está tudo bem?
Talvez essas perguntas possam mudar um pouco.
Em vez de perguntar apenas como fazer isso desaparecer, talvez possamos perguntar o que acontece quando prestamos atenção.
Porque aquilo que hoje parece excesso, incômodo ou resistência pode ter feito sentido em algum momento da nossa história.
Não é necessário romantizar o sofrimento para reconhecer isso.
É apenas admitir que algumas formas de proteção permanecem mesmo depois que deixamos de precisar delas da mesma maneira.
A mente pode dizer: isso já passou.
E talvez tenha passado.
Mas o corpo nem sempre esquece no mesmo tempo.
Por isso, algumas mudanças começam menos pela força e mais pela possibilidade de permanecer perto daquilo que sentimos.
Respirar sem imediatamente tentar controlar.
Mover-se sem transformar o movimento em desempenho.
Perceber sem exigir uma conclusão.
Escutar aquilo que aparece na mente.
Escutar aquilo que aparece no corpo.
Talvez, depois de tanto tempo aprendendo a seguir em frente, exista também algo importante em aprender a permanecer.
E, às vezes, essa é a primeira vez, em muito tempo, que alguém realmente se escuta.
Conheça o Psique & Presença
Se perceber esses padrões com mais clareza faz sentido para o seu momento, o Psique & Presença é o acompanhamento individual conduzido por Nino Sampaio. Um espaço seguro de escuta, investigação analítica e ancoragem para cultivar novas formas de relação com a rotina e consigo mesmo.

Nino Sampaio
Psicanalista e analista junguiano. Psicanalista, analista junguiano, professor de yoga e facilitador de práticas meditativas e respiratórias com percurso de pesquisa multidisciplinar.
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Este conteúdo tem caráter informativo e reflexivo e não substitui avaliação ou acompanhamento individual por profissional qualificado.